Sagrado
As definições encontradas no dicionário PRIBERAM para a palavra “sagrado” incluem:
1. Que recebeu a consagração, que se sagrou.
2. Relativo ao culto religioso. = SACRO, SANTO ≠ PAGÃO, PROFANO
3. Que inspira ou deve inspirar grande respeito ou veneração. = SACRO, SANTO
4. Que deve ser cumprido ou respeitado (ex.: direito sagrado, promessa sagrada). = INVIOLÁVEL
5. Que é muito puro ou tem qualidades superiores.
Assim sendo, o sagrado é aquilo que é digno de respeito religioso e profunda veneração.
Segundo Mircea Eliade, o ser humano aprende o que é sagrado porque este se revela a ele, se mostrando totalmente diferente do profano, definido como aquilo que é alheio à religião. A partir de tal ideia, temos o pensamento de que o que é sagrado vai variar, então, de acordo com cada religião, e cada uma delas pode ter uma variada quantidade de “coisas” consideradas sagradas: templos, objetos, pessoas, relíquias, palavras ou frases, ritos, rituais, locais/espaços naturais ou construídos pelo ser humano, ensinamentos, dogmas, tradições, posturas (condutas, ações, posicionamentos, comportamentos), textos ou livros, nomes, períodos de tempo ou do ano, alimentos e bebidas, formas geométricas, estrelas e planetas, plantas, etc. O sagrado, a depender da religião a que se refira, chega a abranger até mesmo os pensamentos humanos e a maneira como se desenrolam as relações sexuais entre as pessoas. Logo, o sagrado manifesta se sempre como uma realidade inteiramente diferente das realidades “naturais” (ELIADE, p. 12), mesmo que o objeto de culto ou espaço de serviço seja a própria natureza.
Para a Igreja Católica, a liturgia (serviço no culto) é algo sagrado. No Siquismo, o Guru Granth Sahib é o livro sagrado, sendo reconhecido pelos siques como o Guru vivo e eterno.
Para nós, bruxas, o sagrado para a bruxaria é uma construção pessoal e cultural que pode incluir elementos como a natureza, os ciclos da vida, a fertilidade, a morte, as estações do ano, a lua, os sonhos, os animais, as ervas, o nascimento, o luto e as passagens humanas, segundo a Wikipedia.
No trecho a seguir, de Buckland, vemos a sacralidade da fumaça do incenso em nossa religião:
“Que a água sagrada e a fumaça do incenso sagrado eliminem qualquer impureza deste punhal, para que ele fique puro e limpo, pronto para me servir e aos meus deuses, da maneira que eu desejar. Que assim seja”. (p.96)
Nosso mistérios antigos e ancestrais também nos são sagrados.
A Ayahuasca, elemento sacro e cultural central de religiões como o Santo Daime e a Barquinha, servindo não apenas como uma ferramenta medicinal e espiritual, mas também como um meio de transmissão de conhecimento e fortalecimento das tradições locais (Religiões Ayahuasqueiras – Religião e Poder).
Elemento comum a tudo o que foi dito é o espanto (forte impressão) diante do sagrado, do grandioso, do sobrenatural, diante do mysterium tremendum, como dito por Rudolf Otto. O espanto que nos encanta e transforma as experiências religiosas em sagradas, visto serem elas manifestações distintas do regular, ordinário, corriqueiro, cotidiano, profano.
Conclui-se, portanto, que o sagrado não se limita a objetos, lugares ou rituais específicos, mas representa uma dimensão da experiência humana que transcende o cotidiano e confere significado, reverência e transformação à vida. Embora cada tradição religiosa reconheça diferentes manifestações do sagrado, todas compartilham a percepção de que existe algo que ultrapassa o comum e merece profundo respeito. Seja na liturgia católica, no Guru Granth Sahib do Siquismo, na Ayahuasca das religiões ayahuasqueiras ou na relação da bruxaria com a natureza, os ciclos e os mistérios ancestrais, o sagrado revela-se como uma realidade que conecta o ser humano ao transcendente. Na bruxaria, o sagrado é vivenciado de maneira profundamente imanente: ele está presente na Terra, nos elementos, nos ciclos lunares e sazonais, nas divindades, nos ancestrais, nas ervas, nos animais e nos atos rituais que reafirmam a interdependência entre o ser humano e a natureza. Assim, cada prática mágica realizada com respeito, intenção e consciência torna-se um ato de comunhão com o divino, reconhecendo que a própria vida é uma manifestação do sagrado. É justamente essa capacidade de despertar o espanto, o encantamento e o sentimento de pertencimento ao mistério que faz do sagrado um elemento fundamental das religiões e da espiritualidade humana.
Referências bibliográficas
BUCKLAND, Raymond. Livro completo de bruxaria de Raymond Buckland: tradição, rituais, crenças, história e prática. — 1. ed. – São Paulo: Editora Pensamento Cultrix, 2019.
ELIADE, Mircea, 1907 1986. O sagrado e o profano. – São Paulo: Martins Fontes, 1992.
https://religiaoepoder.org.br/artigo/religioes-ayahuasqueiras, em 09/07/2026
“sagrado”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/sagrado, em 09/07/2026


