Estes dias estava estudando um pouco de filosofia (gosto demais e sempre dou uma olhada quando tenho algum tempo) e me deparei com a ideia de Jaula de Ferro de Max Weber. Para este filósofo, a burocracia é uma coisa muito boa, pois, essencialmente, faz com que as coisas aconteçam da melhor forma possível, com racionalidade, planejamento, ordem e método. Porém, quando ela fica exagerada, aí é como se entrássemos em uma jaula de ferro – aprisionados pelos excessos. Assim que fechei a aba com a aula, dei de cara com o quadro Crono Devorando Um Filho, de Goya (quadro que, hoje, está no Museo del Prado, da Espanha).

Goya – Crono devorando um filho – Museu del Prado – Madrid/Espanha
Neste quadro, como podemos ver acima, temos o deus grego Crono – deus do tempo, da ordem, da regra e da disciplina – devorando um de seus filhos. E isso me conectou imediatamente à ideia de Weber.
E o que isso tem a ver com a sua vida e com o seu dia-a-dia?
Para entender esta conexão, devemos voltar para a Mitologia Grega. Nos mitos gregos de criação, Urano – um dos deuses primordiais – desce à Terra de tempos em tempos para fecundar Gaia. Ele desce, fecunda a Deusa-Mãe e, em seguida, volta para a sua vida de oba-oba. Gaia, então, engravida, e em cada gravidez ela sofre intensamente com dores excruciantes. E ela vai tendo seus filhos – monstros como os hecatonquiros (gigantes com centenas de pernas, olhos e braços), ciclopes (os gigantes de um olho só), e os Titãs (que terão papel primordial na história mítica grega). E, então, farto disso, um de seus filhos (Crono) decide matar o pai com um golpe de sua foice e, com outro golpe, corta o órgão genital do pai e o joga ao mar – e, das espumas do impacto do órgão com o mar nasce Afrodite, deusa do amor e da beleza. Crono, então, assume o controle de todo o Universo junto de sua esposa-irmã Reia. Porém, um oráculo diz que Crono um dia será destronado por um de seus filhos. Chegamos, então ao quadro de Goya – Crono passa a devorar seus filhos um a um. Cansada, Reia salva Zeus (entregando um pacote de pedras para Crono devorar). Zeus liberta Hades e Poseidon, e com a ajuda dos irmãos e dos gigantes anteriormente aprisionados por Crono, destrona o pai, assumindo o controle de todo o Universo.
E o que isso tem a ver com a ideia da Jaula de Ferro e da Burocracia? Vamos compreender o mito por partes:
1 – Urano engravida Gaia – aqui, há a criação indevida, exagerada, descontrolada, e que só gera destruição e dor;
2 – Crono mata o pai e joga o órgão genital ao mar – Há a intervenção da regra, do limite, da ordem, da seriedade, do padrão e do controle. Com isso, nasce Afrodite – a mais bela das criaturas;
3 – Com medo de perder seu trono, Crono passa a devorar seus filhos – agora desejando o controle de tudo, Crono passa a destruir sua própria criação.
Vemos, aqui, que o mito repete a ideia de Weber – controle é bom e necessário. Limite é bom e necessário. Padronização é bom e necessário. Mas, quando exagerados, nos prendem na Jaula de Ferro, trazendo destruição, dor e aprisionamento.
E quantas vezes estamos presos nas nossas Jaulas de Ferro, por exagero? Quantas vezes nos impomos regras exageradas, limites exagerados, controle exagerado? Segundo Freud, este superego hipertrofiado é um dos primeiros passos para recalcar questões que, mais cedo ou mais tarde, virão à tona trazendo problemas.
Temos, portanto, que cuidar para não colocar a nós mesmos em Jaulas de Ferro. A contemporaneidade quer exatamente isso, para, cada vez mais, nos vender a solução para as nossas crises através de produtos e entretenimento cada vez mais massificados e inúteis – e que, no fundo, só nos aprisiona ainda mais em nossas Jaulas de Ferro.
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Luiz Junior na Quarta Dimensão
Astrólogo, terapeuta holístico, escritor e pesquisador do simbolismo, da mitologia e do autoconhecimento, com mais de 30 anos de experiência. Atua unindo Astrologia, Tarô, Baralho Cigano, Arquétipos e Psicologia Simbólica para promover transformação pessoal.

