Recentemente, vi muitos vídeos, textos e gente falando na internet sobre arquétipos, como ativá-los, etc. Fiquei bem assustada e preocupada com algumas das informações, por que podem ser prejudiciais para quem acredita.
Confesso que eu mesma procrastinei a escrever sobre esse tema, apesar de ter os arquétipos como parte importante da minha pesquisa de iniciação científica, de usar a teoria na parte simbólica das minhas leituras de tarot. Meu principal receio era trazer isso de uma forma muito acadêmica ou superficial, e acabar causando mais desinformação ou confusão sobre o assunto. Mas já faz um tempo que vocês me pedem, e eu acho que é importante entender: o que é verdadeiro nesse monte de informações? Como você pode usar arquétipos na sua vida?
O arquétipo:
O termo arquétipo como usamos hoje foi criado pelo médico e psicanalista Carl G. Jung e faz parte dos conceitos fundamentais da psicologia analítica. Entretanto, os símbolos arquetípicos já existiam antes de serem classificados em uma teoria, já atuavam na psiquê humana e eram usados pelos nossos antepassados dentro das religiões, arte e cultura.
O que é um arquétipo? Ele é um símbolo que expressa uma verdade da vida humana, independente da época histórica. Ele tem essa premissa de ser universal – há muitas críticas a esse modelo de ideia universal, e eu mesma como taróloga, bruxa e estudante de psicologia tenho minhas ressalvas quanto ao universal. Entretanto, tenho que admitir que concordo que os arquétipos falam sobre dilemas humanos atemporais, como o amor, a competição, o eu, a traição, a relação com a comunidade, o sacrifício, o tempo, o nascimento, morte e renascimento. Os símbolos arquetípicos contam partes do arquétipo, mas dificilmente trazem todas as camadas do Arquétipo por inteiro.
Na minha vivência, percebo o quanto os símbolos arquetípicos podem causar impactos na ampliação da consciência, e principalmente, em encontrar soluções criativas para os problemas que estamos vivendo. São como histórias simbólicas que nos ajudam a encontrar a solução em um momento de dúvida ou angústia. A nível espiritual, também nos ajudam a convocar uma energia para ser utilizada em um ritual.
A nossa cultura está repleta de símbolos arquetípicos, alguns sendo hiper estimulados inclusive. Falo mais sobre isso, no decorrer do texto.
No amor podemos observar o Arquétipo dos Amantes, sendo expressos em boa parte das comédias românticas e religiões. Ele é constituído basicamente, de uma personagem, que vai se apaixonar, ter dúvidas sobre o próprio sentimento e das outras pessoas (comum estar apaixonada por mais de uma pessoa), vai passar pelo dilema da escolha, o conflito ético. O Amante tem conflito ético entre escolher a verdade do seu coração ou viver tentando agradar os outros (pode ser o parceiro, a família ou a sociedade).
Podemos observar esse símbolo arquetípico nos mitos que envolvem os relacionamentos de Afrodite, na escolha de Iansã por Xangô e não Ogun, em Romeu e Julieta. Nesse último caso, o casal não tem dúvida dos sentimentos, mas existe uma pressão social para que não fiquem juntos. Atualmente vemos isso com frequência em casais LGBTQAP+, onde a família, a religião ou mesmo o estado tentam impedir a união.
No tarot partes do arquétipo dos Amantes aparecem em diversas cartas e leituras. No meu trabalho já aconteceu de aparecem mulheres acreditando que precisam de conexão com a deusa afrodite para resolver um problema no amor, mas muitas vezes, após fazermos uma leitura simbólica e energética, percebemos que os arquétipos de renascimento, como a deusa hecate ou perséfone são os que vão ajudá-la a restaurar a harmonia e satisfação na vida amorosa.
Magia é psicologia então?
Não! Hoje a psicologia tem termos que explicam em partes o que rola no processo mágico, entretanto o processo mágico e de conexão com algo maior, o uso da intenção para criar novas realidades e estados de espírito são processos diferentes da em cada uma dessas áreas de saber.
Por que isso pode ser importante para você?
Porque com isso você pode criar rituais para aumentar seu autoconhecimento, se entender melhor, usando a magia como uma das formas de recurso para obter isso. E, por experiência própria, posso te afirmar: bruxas com autoconhecimento e senso crítico são capazes de abalar uma estrutura inteira e construir uma outra realidade em cima. Mas elas não fazem isso apenas com autoconhecimento, elas também jogam energia e intenção sobre uma situação em especial. A magia é e sempre será, a arte de desejar e manipular energias para realizar um objetivo, que pode inclusive ser algo totalmente externo. Como conseguir um novo emprego, atrair um novo amor ou usar ervas que melhoram a comunicação dentro da sua relação.
Mentiras e confusões sobre os arquétipos, o que você deve evitar:
Tem circulado muitas informações que não necessariamente verdades. Aqui eu quero te ajudar a entender algumas delas para você diminuir obstaculos.
Devemos evitar lado sombra de um arquétipo
Essa é a basteira que toda vez que alguém fala uma fada morre. Isso é construído na ideia de que seríamos apenas Luz e se não entramos em contato com as nossas dificuldades, elas desapareceram. Isso é oposto da magia e do autoconhecimento, que operam sobre a contradição e equilíbrio das forças. Mas me conta uma coisa, se você matasse ou negasse a sombra, como você poderia fazer magia? Se você quer saber mais sobre como trabalhar a sombra dos arquétipos, comenta aqui embaixo.
Podemos viver apenas um arquétipo?
NÃO. E por que? Somos seres complexos, na vida vivemos uma grande onda de sentimentos, ações, situações. Não somos um personagem de filme, desenho, nem um mito grego. Gosto de um termo chamado possessão pelos arquétipos, é da psicologia, fala de quando temos um arquétipo hiper estimulado, quando tentamos nos relacionar apenas como um símbolo arquetípico. Isso faz a nossa psique ficar rígida e com déficit de outras ideias criativas para lidar com a vida.
Na magia eu gosto muito de pensar na ideia de deusa mãe. A gente pode ter uma divindade como principal, mas é normal termos divindades amigas ou transitórias que nos ajudam em situações específicas. E uma não anula a outra, são a união dessas forças que vão dar base ao seu caminho na magia. Lembre-se a harmonia nasce do contato dos diferentes e da resolução dos conflitos, não do envio dos diferentes para debaixo do tapete.
Energia feminina e masculina.
Cuidado com livros, vídeos e pessoas que colocam como energia feminina ser passiva – e masculina agressiva – pode ser só estereótipos de gênero mascarados de “sabedoria profunda”.
Encene até se tornar real:
Arquetípicos não são personagens que você encena, mas ideias criativas ancestrais que você pode se apropriar para superar obstáculos na vida. Inclusive já recebi relatos de pessoas encenando deusas, esquecendo da energia espiritual e política envolvidas nisso, e passando muito mal depois (fisicamente e emocionalmente).
É só colocar uma foto da deusa no seu celular:
Colocar uma foto de uma deusa ou símbolo não vai ativar um arquétipo – você pode admirar uma obra de arte (inclusive recomendo), mas apenas essa imagem não vai resolver seus problemas por você.
Dito isso, tem como usar os arquétipos de forma consciente? Tem, mas já aviso que é mais elaborada do que por uma foto da deusa na tela do seu celular.
Como podemos usá-los de forma consciente e prática em nossas vidas.
Se você já é praticante de magia, frequenta terreiros, cultua alguma divindade ou frequenta alguma outra religião, provavelmente já usou arquétipos em suas práticas, mas talvez só não tenha percebido. No seu dia a dia, você pode entrar em contato consciente com os arquétipos com essas ações:
- Ler sobre os símbolos e mitos que te interessam.
- Fazer terapia (vai te ajudar a localização seus padrões) .
- Apreciar arte (cinema, quadrinhos, literatura).
- Entender o contexto histórico do símbolo arquetípico que você se te interessou
- Se perguntar, sempre quando encontrar um símbolo que te chama a atenção: o que eu gosto? O que me causa repulsa ou estranhamento?
- Lembrar que o amor, ódio, paz, guerra, dúvida, morte e renascimento fazem parte de você, em alguma medida.
- Leia e aprenda sobre ervas e elementos naturais daquele culto. Se sentir à vontade, experimente.
- Lembrar que todos os arquétipos são úteis e vão te ajudar em alguma medida.
- Aprenda a reconhecer os gatilhos e respeitar seu tempo de digestão, arquétipos são complexos e maravilhosos, mas pode ser lento o processo de lidar com eles, respeite seu processo de amadurecimento e conexão com eles.
Se você quer um texto onde te ajudo a se conectar com arquétipos que podem te ajudar na sua vida amorosa, comenta aqui embaixo, que eu crio uma parte 2 desse texto.
About The Author
O Espelho de Vênus
Victoria Guilherme, é bruxa, taróloga desde 2017, devota de Pomba Gira e das Deusas antigas. Aqui neste espaço você vai encontrar sobre vida amorosa, mitologia, ervas, espiritualidade e empoderamento feminino.

